Fui chamada, numa emergência, a
gerir uma clínica médica em crise. A clínica
era de um casal, onde a mulher era a médica que atendia
os pacientes, e seu marido gerenciava o negócio.
Contudo, após um período de crises conjugais,
eles decidiram se separar. Com isso, o marido saiu da gestão
do negócio, de uma hora para outra, abandonando o
barco em movimento. Desesperada, a médica entrou
em contato comigo e solicitou meus serviços.
Aos poucos fui tomando consciência do real estado
do negócio. Na verdade, descobrimos que o marido
possuía uma empresa e desviava recursos, i.e., dinheiro,
do negócio dela para o negócio paralelo dele.
E pior do que isso, além de desviar o dinheiro, ele,
sabendo da separação próxima, aproveitou
os últimos 6 meses para criar dívidas e financiamentos
em nome da clínica, para se capitalizar.
A situação era caótica. Ele saiu, postergou
todas as contas da clínica para depois de sua saída
e levou todos os cheques pré-datados. Além
disso, havia constantes reclamações a respeito
de seu jeito bruto e mal-educado de ser, o que afastava
os pacientes com os quais ele tinha contato direto. A médica,
por outro lado, era um amor de pessoa, super competente,
cuidadosa, tratando todos os clientes de maneira única,
o que despertava neles confiança e fidelidade.
A primeira semana foi para descobrirmos o tamanho do rombo
que ele havia feito. Descobrimos, pasmas, a quantia desviada
por ele em todo o tempo que gerenciou o negócio.
Mas nem tudo eram problemas. O fato de eu ter entrado como
gestora do negócio deu mais vida e tranqüilidade
a todos, que já não o agüentavam mais.
Perdia-se funcionários, clientes, relações
com fornecedores, tudo.
Aos poucos, fui reparando os erros de gestão. Enviamos
uma mala direta a todos os pacientes comentando a respeito
da mudança de gestão, o que gerou muitos comentários
favoráveis, dada a impopularidade daquele homem.
Mês a mês eu exportava os dados do software
de gestão para o Excel, e enviávamos malas
diretas de aniversário e datas importantes, com o
intuito de mostrar aos clientes que agora a gestão
do negócio valorizava-os.
Fora isso, trabalhei no relacionamento com funcionários,
que perceberam a mudança e passaram a trabalhar mais
contentes e satisfeitos, merecedores de um aumento de salário.
A implantação da remuneração
variável era uma meta que eu tinha, mas era cedo
demais para isso. A urgência era conseguir dinheiro
para pagar os salários, e nossos credores, que me
ligavam diariamente, com os mais diversos discursos, desde
o ameaçador ao coitadinho: “E então,
quando você vai nos pagar? Temos um cheque de vocês
de alto valor, podemos protestá-lo, você sabe
não é?” ou então “Poxa,
me faz um pagamento esse mês, estou super mal de dinheiro,
me ajuda, eu estou ferrado...”, e até mesmo
agiotas mal encarados, que não precisavam nem abrir
a boca para intimidar. E outro problema, era final de ano,
dezembro só tinha 20 dias, e em janeiro e fevereiro
as pessoas estavam viajando!
Emergência! O que fazer? Organizar as idéias.
Primeiro: calcular o tamanho do passivo do negócio
e estabelecer prioridades de pagamento. Segundo: negociar
com credores, para mostrar disposição em pagar
as dívidas. Terceiro: Obter o dinheiro necessário
para pagar as contas básicas e primordiais, como,
água, luz, telefone. Quarto: pagar os credores aos
poucos.
Primeiro: calcular o tamanho do passivo do negócio
e estabelecer prioridades de pagamento. Com uma planilha
em Excel, calculei o tamanho do rombo deixado pelo antigo
gestor. Logicamente eu pagaria o agiota antes dos honorários
do contador, pelo simples fato de eu ter estabelecido prioridades,
e uma delas era a segurança.
Segundo: negociar com credores, para mostrar disposição
em pagar as dívidas. Com um perfil TOTALMENTE diferente
do outro gestor, me reuni com os credores, um a um, e, com
toda a educação, expus o que o antigo gestor
havia feito. Apesar de ele ter feito as coisas erradas para
uso próprio, decidimos que íamos arcar com
as dívidas e honrá-las. E foi o que eu disse
aos credores, que notaram a dificuldade e nossa boa vontade
em realizar o pagamento das dívidas.
Terceiro: Obter o dinheiro necessário para pagar
as contas básicas e primordiais, como, água,
luz, telefone. Passamos pelo final de ano no limite e, não
fosse uma estratégia promocional emergencial em site
de compra coletiva, não teríamos dinheiro
para 13º e salários de janeiro. A estratégia
foi cuidadosamente planejada, pois eu sabia que não
havia espaço para erros. Estávamos no limite,
e um erro, naquela altura do “campeonato”, poderia
custar o bem estar de pessoas inocentes. A clínica
oferecia serviços intangíveis, com pouca percepção
por parte do cliente, pois eram tratamentos superficiais
e eu sabia que na promoção que eles fizeram
anteriormente, esse serviço não vendeu muito.
Sendo assim, associei um tratamento tangível a esse
tratamento intangível que era oferecido e, além
disso, o pacote incluía uma consulta com a médica,
não somente com suas funcionárias, o que aumentava
a possibilidade de retenção dos clientes,
dado seu carisma e experiência. O resultado foi que
conseguimos 255 novos clientes com essa estratégia,
o que gerou a necessidade de contratação de
mais funcionárias para o atendimento dessa nova demanda.
Além disso, eu havia percebido que nosso índice
de aprovação de avaliações com
as funcionárias era baixo. Assim, chamei-as para
um rápido treinamento de vendas, para contornarmos
esse problema. Funcionou.
Quarto: pagar os credores aos poucos. No mercado financeiro,
a palavra vale muito, saiba disso. Não é o
caso de falar, ah, não posso pagar e como criança,
chegar e falar: “To de mal, não brinco mais”.
Absurdo, conduta infantil e irresponsável são
a chave do fracasso, no mercado financeiro ou em seu consultório
ou clínica. Você perde totalmente sua credibilidade.
Sabendo disso há muito tempo, dei minha palavra que
iria cumprir nossos acordos. E cumpri. A sinceridade foi
o que mais deu certo: “Márcio, esse mês
não vou poder te pagar, as coisas estão difíceis,
não vai dar MESMO.” E ponto final, eu não
deixava espaço para choramingas, “mas e se
...”, etc. Funcionava com todos, menos com o agiota
que continuava com a pressão.
Mas nossas perspectivas não eram ruins. Segundo minhas
contas, planejávamos pagar os credores em um ano
e, apesar da quantia devida ser alta, tínhamos capacidade
de honrá-la. Honrar é a palavra certa, pois
à medida que dei minha palavra que pagaria, nem que
fosse um pouco por mês, eu DEVERIA fazer isso. E fiz.
Ao mesmo tempo, perdemos uma recepcionista, que estava cometendo
erros sucessivos e era prepotente, reclamação
feita por próprios pacientes. Assim, além
das outras funcionárias que eu precisava contratar
para suprir a demanda da promoção, precisei
correr atrás de uma nova recepcionista. Meus critérios
eram bem rigorosos: basicamente cursando o superior, ou
com superior completo. Consegui, a muito custo, de uns 100
currículos que recebi, selecionar 12 e marcamos as
entrevistas. Algumas não se encaixavam no perfil
da clínica, porque trabalharam em negócios
sem nada a ver com Saúde, outras não se comportavam
adequadamente, e assim por diante. Selecionei uma ótima
menina, que cumpriu muito bem com sua função.
Dispensei a recepcionista e, como eu havia contratado funcionárias
adicionais para a promoção, acabei dispensando
uma delas, que já estava no negócio há
um tempo, mas não se dava bem com ninguém.
Desta maneira consegui eliminar todas as pessoas deletérias
no negócio.
O clima era outro. Todos ficaram satisfeitos com a mudança
e eu, apesar de tratar todos muito bem, fazer palhaçadas
de vez em quando, conversar de igual para igual com as faxineiras,
copeiras e outros funcionários, era respeitada e
acima de tudo, e mais importante, era admirada, pelo tipo
de liderança carismática que introduzi no
negócio. Certo dia, percebi que a funcionária
estava se atrasando com freqüência no trabalho,
ora uma desculpa, ora outra. Chamei-a para conversar e,
para surpresa da médica, que depois soube do caso,
descobri que a menina apresentava sintomas de depressão.
Ela chorou, eu ouvi e disse coisas a ela que a fizeram superar,
em pouco mais de uma semana, aquele quadro depressivo. Eu
também disse a ela: “Vou te encher de trabalho,
assim você não terá tempo de ficar triste”.
Ela riu, e acabou dando certo, ganhei mais uma seguidora
e a admiração dos funcionários, que
tinham a liberdade de me procurar para obter vales e adiantamentos
de salário, desde que isso não interferisse
no fluxo de caixa do negócio.
Até que chegou janeiro. A médica tinha um
péssimo hábito de segurar a informação
e liberá-la na última hora. “Olha, Victoria,
temos que pagar esse cheque de 10 mil reais, da paciente
tal”. PUTZ! 10 mil assim, de uma hora para outra????
Paguei o cheque, mas isso afetou todo o planejamento financeiro
de janeiro, pois agora tínhamos 10 mil a menos. Tivemos
que recorrer a um dos outros sócios, que injetou
algum dinheiro na clínica, para sobrevivermos. Além
disso, a assistente da médica tinha o costume de
deixar tudo para última hora: “Victoria, precisamos
comprar tal substância, pra amanhã”.
E lá se iam mais 2 mil reais. Fiquei puta da vida
com isso, pois, além de todos estarem me cobrando
(os credores, os funcionários, todos), era eu que
tinha que sair correndo para resolver os problemas de última
hora, sendo que as pessoas deveriam se planejar. Tudo isso
era fruto da gestão temerária anterior, onde
tudo era feito de última hora, sem planejamento.
Passamos janeiro no limite, e, no final de janeiro veio
algum alívio financeiro, o que nos permitiu pagar
os salários de fevereiro.
...continua...
Profa. Dra. Victoria Z. Strongerfield
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