“O
mundo abre passagem ao homem que sabe para onde está
indo.” (Ralph Waldo Emerson)
Períodos
críticos para o dentista
Sabemos que os períodos mais críticos
por falta de clientela para um dentista são janeiro,
fevereiro e julho, devido às festas de final de ano,
iminência do Carnaval e férias. Contudo, essa
sazonalidade não deve ser considerada como estática
e imutável, e é dependente da especialidade
do cirurgião-dentista, fatores demográficos
e econômicos. Por exemplo, uma clínica que
ofereça a especialidade de ortodontia atenderá
muitos clientes jovens. Sendo assim, os períodos
de férias poderão apresentar uma queda na
demanda, i.e., no número de clientes atendidos, pois
os mesmos poderão estar viajando.
Logo, o fator demográfico “idade”
influencia no período do ano mais crítico
para o ortodontista, por exemplo. Quanto ao fator econômico,
a época de final de ano traz aos assalariados o 13ºsalário,
que é uma oportunidade para que muitos clientes possam
fazer seu tratamento odontológico. Outro fator a
ser considerado nas épocas mais críticas para
os dentistas são os feriados. Com a vida estressante
nas grandes cidades, é cada vez maior a busca por
prazeres pessoais, como um feriado na praia. Com isso, o
dinheiro que poderia ser investido na saúde bucal
é drenado para outras fontes de satisfação,
podendo influenciar na demanda.
A importância do controle
Comumente vejo, na Odontologia e em área
de saúde, uma conduta reativa aos humores do mercado.
Muitos profissionais ainda têm a conduta de 30 anos
atrás, época das “vacas gordas”,
que é a de esperar o cliente entrar em seu consultório
ou clínica. Devido a essa falta de planejamento e
conseqüente falta de controle sobre o negócio,
o dentista é surpreendido por semanas ou meses de
consultório vazio. Então, no desespero, ele
(ou ela) recorre a esforços de Marketing não
direcionados e eventuais, numa tentativa de superar a má
fase. Isso acaba por diminuir ainda mais os recursos do
colega, tornando a situação ainda mais difícil.
Uma conduta apropriada seria, antes de mais
nada, obter o controle sobre o negócio, sobre quantos
procedimentos são feitos, quanto se gasta e quem
gasta, quanto se ganha e as fontes de receitas e despesas.
É o que faz a Gestão (comumente confundida
com o Marketing na área odontológica). Como
diz o slogan da Pirelli: “Potência não
é nada sem controle”. Uma vez obtido o controle,
pode-se então proceder ao planejamento financeiro.
Muitas vezes o dentista se encontra preso a uma estrutura
de custos desfavorável, o que acaba por dificultar
sua poupança. Logo faz-se necessário saber
quais são os custos e de onde vêm. Lógico,
para se planejar financeiramente para momentos de baixa
demanda, pressupõe-se que o dentista tenha lucro
em alguma época do ano. A chave do problema é
onde investir o lucro. Uma alocação de lucro
consciente seria: investir 7% do lucro em propaganda, 20%
no pagamento de dívidas, 40% em poupança ou
aplicações financeiras e assim por diante.
Somente tendo dinheiro em caixa pode-se suportar períodos
de escassez de clientes.
Publicidade e Propaganda em
épocas de vacas magras
Estratégias de Marketing em épocas
de “vacas magras” dependem do conceito e causa
do período de “vacas magras”. Depende
do foco. Muitas vezes temos períodos de vacas magras
que duram horas, por exemplo das 15:30 às 16:00 hs.
São chamados horários de “gap”
(lacunas, em inglês). Nesse caso, poderiam ser praticados
preços abaixo da tabela para estimular o preenchimento
dessas lacunas. Se esse período for eventual ao longo
do ano, devido aos motivos expostos na primeira pergunta,
pode-se intensificar o uso de ferramentas de Marketing para
aquisição de clientes.
Marketing não é propaganda
e nem toda propaganda é anti-ética. Vejo discussões
entre dentistas onde se condena a propaganda, pelo argumento
de que ela significa a mercantilização da
profissão. Ainda que isso possa ocorrer em casos
isolados, não é disso que trata o Marketing.
Veja por exemplo a propaganda boca-a-boca. É a mais
poderosa ferramenta de Marketing e é propaganda.
Com isso quero dizer que fazer anúncios ou preços
promocionais em tempos de baixa demanda adianta muito pouco.
Isso porque o Marketing deve ser uma filosofia do negócio
e deve ser constante.
Veja por exemplo a Coca-Cola. Ainda que
tenha a liderança do mercado em refrigerantes, nunca
deixa de fazer a propaganda de seus produtos. Por quê?
Porque a propaganda, assim como a mala direta, reforça
a imagem da empresa na mente do consumidor. Compare agora
a Toyota com a Ford. A Toyota vem desenvolvendo sua política
de qualidade e zero defeito há muitos anos e a Ford
ficou para trás, apresentando resultados negativos
no último ano. Você acha que uma eventual promoção
da Ford vai atrair mais clientes? Não vai. Logo,
Marketing de nada vale se a reputação e imagem
do consultório não andam bem. E quando a reputação
e imagem não vão bem, as épocas de
“vacas magras” começam a se tornar mais
freqüentes culminando com a falência do negócio.
Antecipando o movimento de
mercado
Na Odontologia parte-se do pressuposto que
sendo um bom profissional na área técnica
os clientes virão em abundância. Isso realmente
aconteceu há muitos anos atrás. Contudo, os
tempos mudaram. Além da saturação de
dentistas no mercado e entrada dos planos odontológicos,
vivemos na Era da Informação. O cliente está
muito mais informado sobre possibilidades de tratamento,
busca informações pela Internet. Com isso,
a concorrência aumentou drasticamente e tem havido
uma seleção de profissionais no mercado. Os
que têm algum planejamento se sobressaem e se preparam.
É, por exemplo, o caso de um dentista que, em períodos
de ociosidade, gasta seu tempo organizando seu negócio,
treinando funcionários, etc. Mas isso não
é a regra.
Conceitos de Marketing e Gestão
na Odontologia
A orientação dos profissionais
em Odontologia e na Saúde em geral sobre aspectos
de Administração e Marketing é deficiente,
senão intuitiva. Nos últimos anos, o interesse
pelo vestibular em Odontologia tem caído. Ao mesmo
tempo, o número de faculdades é muito grande.
Isso tem como conseqüência a diminuição
do número de alunos em sala de aula. Sendo assim,
a busca das faculdades (que também visam o lucro)
pela economia de custos faz com que as mesmas cortem pessoal
(professores). Desta maneira, as noções de
Administração e Marketing não são
fornecidas por especialistas, mas por professores de outras
matérias.
Com isso, a fundamentação
teórica e prática pode vir a ser fraca. Para
os já formados, essa falta de conhecimento gerencial
se torna patente quando começam a aparecer os problemas
com funcionários, insatisfação e perda
de clientes. Alguns estudam por si mesmos para tentar resolver
o problema, outros procuram ajuda de especialistas e muitos
põem a culpa no mercado, argumentando que o mesmo
está competitivo. Apesar dessa afirmação
ser um fato notório, a meu ver não constitui
uma explicação adequada para o fracasso do
negócio, pois existem muitos dentistas ganhando muito
dinheiro com a Odontologia.
Pode-se buscar conhecimentos em livros de
Marketing, em livros de Gestão de pequenas empresas
e com colegas dentistas. A Internet também é
uma fonte rica de informações, seja por meio
de sites de empresas especializadas, fóruns de discussões
ou artigos científicos. Contudo, é preciso
filtrar o conteúdo adquirido, a chamada vigilância
epistemológica. Deve-se ler a informação
com pensamento crítico e não simplesmente
aceitá-la como dogma. Deve-se saber quem a escreveu,
seus interesses no fornecimento da informação,
sua formação acadêmica, experiência
profissional, etc.
O que é ociosidade
eventual e definitiva ?
Pela minha experiência percebo que
só se buscam saídas quando já é
tarde demais. Uma coisa é a demanda oscilatória
e sazonalidade da mesma ao longo do ano. Isso é normal.
Mas quando o movimento cai durante dois, três, quatro
meses, isso é a manifestação de algo
que não vai bem. E não vai bem há tempos.
Mas, devido à falta de controle, o dentista não
foi capaz de reconhecer os sinais de alerta dados pelo mercado,
como baixo índice de conversões de avaliações
em tratamentos, perda de clientes, faltas excessivas, grande
número de consultas desmarcadas e ausência
de novos clientes.
Pode-se fazer um paralelo com a própria
Odontologia. Se uma cárie não é diagnosticada
em seu estágio inicial, ela evolui, aumenta, compromete
mais estrutura dental, atinge a polpa, periápice,
gera um problema endo-perio podendo levar à perda
do dente. Se um problema com a qualidade do atendimento
pessoal, com a qualidade do tratamento restaurador não
é identificado a tempo, a propaganda boca-a-boca
se encarregará de disseminar cada experiência
negativa a mais 11 pessoas. Não há empresa
que resista a isso.
Logo, se o dentista está no vermelho,
isso é o resultado de um problema de longo prazo.
Normalmente o paciente não perde um dente de uma
hora para outra. Ele não escova os dentes, não
passa o fio dental, não visita o dentista. Ou seja,
parou de prestar atenção à sua saúde.
Da mesma maneira, não devemos parar de prestar atenção
ao nosso próprio negócio. Somos empreendedores,
por isso somos profissionais liberais. Devemos agir como
tal. Concluindo, a meu ver, a solução não
é sair do vermelho e evitar que o problema aconteça
novamente. A solução é não entrar
no vermelho. Nós, dentistas sabemos como ninguém
que o dito popular está correto. É mais fácil
prevenir do que remediar.
Diferenciando o período
de “vacas magras” da falta crônica de
clientes
O aperto sazonal de “vacas magras”
consiste num movimento oscilatório, de alta demanda
(número de atendimentos), baixa demanda, alta demanda,
baixa demanda. Isso é perfeitamente normal. A falta
crônica de clientes já é caracterizada
por um movimento descendente constante da demanda. O número
de atendimentos vai diminuindo progressivamente com o tempo.
Aqui entram dois comentários. Primeiro: só
sabe disso quem controla. Minha sugestão é
que o dentista deve ter um bom software e que coloque dados
no mesmo para ver a evolução do número
de novos clientes, de faltas, de receita, etc. Existem alguns
softwares grátis na Internet para download (http://www.dr3.com.br/consultoria/index2.php).
Segundo: o que vejo na prática é que o colega
dentista só entra em alerta quando o que ganha não
paga suas despesas. Aí acontece o seguinte: se o
aperto dura um ou dois meses e a partir do terceiro entram
novos clientes, ele respira aliviado. Senão, entra
em desespero. Se isso acontece, é sinal que estamos
reagindo ao mercado, ao invés de adquirir controle
sobre ele.
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