Recentemente li um livro sobre co-opetição,
que significa você concorrer e ao mesmo tempo cooperar
com seus concorrentes. Sim, é isso mesmo, cooperar
com seus concorrentes... Basicamente o mundo dos negócios
é um jogo, composto por PARTS:
- Players (jogadores) são sua empresa, seus
fornecedores, clientes, concorrentes e complementadores.
Esses jogadores criam a rede de valor do negócio,
estabelecendo seus relacionamentos. Fornecedores são
as casas de material dental, laboratórios, gráficas,
farmácias de manipulação, etc. Os concorrentes
são os outros dentistas e convênios odontológicos.
Apenas? Não. Um exemplo interessante são as
pastas dentais clareadoras e clareadores vendidos em farmácias.
Elas competem pelo seu cliente de clareamento, assim como
as lojas de celulares, roupas, brinquedos, eletroeletrônicos
competem pelo investimento de seu cliente. Complementadores
são aqueles que complementam seu serviço,
por exemplo fábricas de escovas de dente, pastas
e fios dentais. Penso ser possível considerar complementadores
indústrias de batom, pois ressaltam a aparência
da boca, assim como clínicas de estética,
cabeleireiros, entre outros. Há uma grande oportunidade
com os complementadores, pois como seus produtos não
concorrem diretamente com os seus, é possível
a formação de parcerias com ganha-ganha para
ambas as partes.
- Added value (valor adicional) de cada jogador.
Um jogador tem alto valor adicional quando o jogo mudaria
muito sem ele. Na Odontologia, dada a saturação
do mercado, cada jogador tem valor adicional muito pequeno,
o que aumenta o poder de barganha dos clientes e fornecedores
(laboratórios e dentais). Os clientes são
poderosos pois se eles não quiserem comprar de você
eles simplesmente mudam de dentista, pois há muita
oferta de profissionais. O mesmo acontece com as casas de
materiais dentais. Existem muitos dentistas e se você
não comprar na dental “X”, outro dentista
irá comprar (além do fato de o dentista não
ter o costume de realizar cotações de materiais).
Ao mesmo tempo, existem relativamente poucas dentais, o
que faz com que o valor adicional de cada uma delas seja
grande, pois o dentista depende muito delas. Até
o fato da logística das dentais ser algumas vezes
falha (faltar material) as ajuda, pois a falta de material
faz com que você compre de um outro fornecedor a qualquer
preço, pois seu poder de barganha está diminuído.
- Rules (regras). Quais são as regras do jogo
no qual estamos inseridos? Existem contratos com clientes
e fornecedores? Um contrato com o cliente acontece quando
há um tratamento qualquer. Caso esse tratamento seja
breve, além da criação de um laço
de relacionamento fraco, o contrato é temporário
e com isso seu poder de barganha diminui, pois o paciente
pode desistir do tratamento no meio, não pagar as
parcelas restantes e mudar de dentista. Diz-se então
que o custo de troca é pequeno, pois há pouco
dinheiro envolvido, pouca intensidade emocional envolvida
e pouco tempo de relação. Isso diminui seu
poder. Daí vem a necessidade de se desenvolver relacionamentos
com os participantes da rede de valor, pois só assim
poderemos aumentar o poder da classe odontológica.
Enquanto os dentistas ficarem procurando novos pacientes
ao invés de cuidar dos existentes, não serão
desenvolvidos relacionamentos duráveis e conseqüentemente
nosso valor adicional será muito pequeno. Contratos
com fornecedores aconteceriam se alguns dentistas se unissem
e exigissem preços melhores às casas de material
dental e/ou laboratórios de prótese, devido
à grandeza do pedido. Isso fortaleceria o poder de
negociação dos colegas, diminuindo custos.
Quanto maior o tempo do contrato, maior o poder de negociação
do dentista, pois as casas e materiais dentais fariam de
tudo para ganhar o pedido. Isso mudaria o jogo, fazendo
as casas de materiais dentais e/ou laboratórios de
prótese competirem entre si pelo seu pedido.
- Tactics (táticas) dizem respeito às
percepções e informações disponíveis,
assim como quando um jogador de pôquer blefa, ocultando
ou iludindo seus adversários. Está claro que
a percepção do cliente é de que existem
muitos profissionais e ele tem muita escolha, tanta que
fica até indeciso. Contudo, ao encontrar um dentista
que tem poucos horários disponíveis, agenda
cheia, seja isso realidade ou não, o poder de barganha
do cliente diminui pois ele terá que esperar uma
brecha no horário para ser atendido. Com isso o cliente
fica com a percepção de que o dentista é
bom. O dentista, por sua vez, tem seu valor adicional no
jogo aumentado e aumentado também seu poder de barganha.
- Scope (escopo) do jogo. Quais são os limites
do jogo? Enquanto nos limitarmos a ver o escopo (raio de
alcance) da Odontologia apenas na Odontologia, pior, apenas
no consultório, ficaremos presos ao pessimismo. Os
americanos param no começo de ano para ver o presidente
falar, pois assim planejam seu ano de acordo com as perspectivas
econômicas. Infelizmente isso não existe ainda
por aqui. O que quero dizer é que o dentista fica
confinado a seu consultório tentando achar maneiras
de conseguir mais pacientes. Isso está claro que
não é o caminho. Devemos mudar o escopo do
jogo. Atrair complementadores, mudar o poder de barganha
de fornecedores, ainda que não possamos diminuir
a concorrência. Repito, devemos manter nossos clientes
e revê-los periodicamente. Não concordo com
o que se fala sobre desenvolver a lealdade dos clientes.
A meu ver isso não existe, pois pressupõe
que o cliente será leal a você. O cliente é
leal à tarefa dele, jamais colocará você
acima de suas próprias necessidades pessoais. Ou
seja, acredito que não se crie a lealdade no cliente,
mas sim um relacionamento que pode ser duradouro. Há
muitos casos de dentistas que ficam amigos de seus clientes
e ainda nesses casos, o cliente procura outro profissional,
por estar insatisfeito com o tratamento atual, ainda que
mantenha a amizade.
Agora fica a pergunta: como mudar o jogo com o cliente,
com a saturação de dentistas atualmente? Acredito
que a formação de grupos de dentistas com
especialidades complementares na mesma região ou
mesma especialidade em regiões diferentes possa fortalecer
o poder de barganha da nossa classe. Isso permitiria compartilhar
custos de marketing, pois o custo de uma campanha publicitária
de R$ 20.000,00 num grupo de 40 dentistas ficaria reduzido
a R$ 500,00 por dentista. Some a isso um contrato de longo
prazo com uma casa de material dental com pedidos anuais
de R$ 192.000,00 (40 dentistas gastando R$ 400,00 por mês
durante os 12 meses do ano), qual você acha que seria
o novo poder dos dentistas? Com isso, os consultórios
receberiam mais pacientes, teriam menos horários,
aumentariam seu poder de barganha, diminuindo o poder do
cliente na negociação e melhorando sua percepção
sobre a imagem dos consultórios do grupo. Formar-se-iam
alianças estratégicas entre dentistas, ao
invés da atual guerra de preços, que enfraquece
a todos.
Agora você pergunta: e os convênios
odontológicos? Enquanto os considerarmos concorrentes,
ficaremos em desvantagem, logicamente. Talvez possamos considerá-los
complementadores, para aqueles pacientes que não
têm condição financeira. Não
é uma medida inteligente entrar em conflito, pois
seria um conflito auto-infligido. Talvez possamos utilizar
peculiaridades do atendimento dos convênios para fortalecer
nossa posição. Sabe-se que convênios
lidam com má fé de alguns dentistas e têm
um prazo mínimo a partir do qual obtém o payback
do cliente em relação ao pagamento feito aos
dentistas. Por isso são instituídas consultorias,
para verificar a coerência do dentista e raramente
uma clínica possui todas as especialidades. Sabe-se
que a maioria dos pacientes não gosta de realizar
o tratamento fragmentado em várias clínicas
em locais variados. Não dispõem de tempo pra
isso. E como tempo é dinheiro, o dinheiro economizado
com o tempo de se fazer o tratamento num só local
pode convencê-lo a fazer o tratamento “particular”.
Ou seja, poderia-se modificar uma das PARTS do jogo em favor
dos dentistas. Isso não implica na eliminação
dos convênios, muito pelo contrário, o paciente
pode ter o convênio e ainda assim fazer o tratamento
particular com você. Convença-o a utilizar
apenas as limpezas periódicas e os tratamentos os
quais você está credenciado. Convença-o
a fazer todo o tratamento em sua clínica, argumentando
sobre a economia de tempo e esforços. Com isso o
convênio ganha, pois receberá a mesma quantia
do cliente, não precisará repassar reembolso
ao dentista e você ganha pois tratará do paciente
na especialidade na qual é credenciado e nas outras
existentes em sua clínica. Isso tem efeito até
um limite de dinheiro. A partir de um determinado limite,
característico para cada cliente, ele estará
disposto a ir a vários lugares para fazer o tratamento.
Já houve casos em que eu próprio indiquei
ao paciente fazer um plano odontológico, pois estou
interessado em resolver a tarefa do cliente. Satisfazendo-o,
o sentimento de gratidão e sinceridade que surge
desenvolve um relacionamento consistente e duradouro, podendo
gerar indicações futuras de outros clientes,
que não necessariamente possuam um plano odontológico.
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